terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O perigo das citações indiretas

Citação indireta, de acordo com a norma NBR 10520, " é um texto baseado na obra de um autor consultado". Por sua vez, citação direta refere-se à  "transcrição textual de parte da obra do autor consultado".  Portanto, o primeiro tipo de citação não é literal, ao contrário do segundo, que deve ser exatamente igual ao texto consultado.
As citações literais são mais fáceis de fazer por serem cópias fieis dos autores consultados, mas em excesso demonstra descaso do autor com o próprio texto. Grosso modo, falamos da diferença entre copiar (citação literal) e interpretar o significado e reescrever o texto com as próprias palavras (citação indireta). Um texto com citações indiretas, bem escritas e articuladas, é mais fácil de ler, mais elegante, mais valorizado!
 Faz sentido fazer citações literais somente daqueles textos que realmente são difíceis de "traduzir" com as próprias palavras.  O ideal é realmente fazer citações indiretas.Contudo, por serem mais complexas e exigirem mais trabalho do autor, nem sempre são feitas corretamente! 
Em uma das bancas de graduação que participei recentemente, um membro da banca acusou o estudante de plágio, pois ele havia trocado algumas palavras apenas do texto.   Eu não considerei que o estudante tivesse plagiado, pois havia menção de autoria em todos os parágrafos citados, porém a forma da citação era claramente incorreta. Ou seja, era quase uma citação direta! 
Para deixar mais claro, a seguir apresentam-se uma citação indireta do texto e duas citações indiretas. Consegue descobrir qual das citações indiretas é a correta?

1. Citação direta:

 A acessibilidade na biblioteca universitária é fundamental para que todos os usuários se sintam incluídos na sociedade, devendo haver uma preocupação, por parte dos profissionais da informação, em adequar suas unidades de informação para atender toda uma diversidade de usuários  (FIALHO, 2012, p. 155). 


2.  Citação indireta:

Fialho (2012) argumenta que a acessibilidade na biblioteca universitária é importante todos os usuários se sentirem incluídos na sociedade, devendo haver uma preocupação, por parte dos profissionais da informação,  em atender a diversidade de usuários. 

3. Citação indireta:

Fialho (2012) explicita sobre a importância da inclusão na sociedade, em especial nas bibliotecas universitárias. Mais ainda, deixa claro que os profissionais de informação precisam contribuir com a inclusão por meio da adequação das  unidades de informação aos diversos usuários. 

Como se observa o item número 2 apresenta citação indireta com apenas trocas de sinônimos. Na verdade, é quase uma citação literal. Ao contrário do item 3, que houve uma paráfrase do texto. Portanto, uma citação indireta é a interpretação e reescrita do texto com as próprias palavras, preservando o sentido original.

Muitas vezes, esse tipo de erro não ocorre de maneira intencional, mas por desconhecimento. Contudo, na hora da banca não adianta dizer que foi desconhecimento... Por isso, espero que esse post ajude as pessoas que precisam apresentar um texto científico de qualidade. Boa sorte!!!








 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O conhecimento liberta!

Cada um corre atrás dos sonhos e das realizações.
O conhecimento é um dos maiores bens, que podemos almejar e conquistar!                      O conhecimento não pode ser algo para alimentar a arrogância, ao contrário mostra como somos pequenos diante do universo a ser descoberto e como sempre é preciso aprender mais.
Aprender deve ser sempre um exercício de humildade, pois ninguém sabe tudo e sempre é possível aprender com outras pessoas, já argumentava Cora Coralina. Além disso, precisamos nos lembrar que vemos mais longe, de acordo com Einstein, quando subimos em ombros de gigantes.
O conhecimento não é uma dádiva, é muito mais transpiração do que inspiração. Dewey afirmava que aprender requer disciplina. Ou seja, a aprendizagem é um processo infinito e difícil, pois requer esforço, compromisso,organização e responsabilidade. O conhecimento depende da experiência de cada um e de como ancoramos as novas informações com o que conhecemos. Assim, cada processo de aquisição de conhecimento é algo pessoal, intransferível e maravilhoso! A aprendizagem muda literalmente o nosso cérebro!
O conhecimento é uma ferramenta para ser usada contra as crendices e a ignorância que assolam o mundo, assim precisa ser compartilhado e constantemente ampliado. Dewey também afirmava que a verdadeira liberdade é a intelectual! O conhecimento avorece o crescimento pessoal e coletivo, oportuniza melhores condições de trabalho e produtividade e de nos adaptarmos constantemente em um mundo que se transforma a cada instante. O conhecimento propicia o prazer da aprendizagem, de olhar o mundo e compreende-lo melhor, de usar os recursos de forma sustentável, em prol da vida plena dos cidadãos.
Façam sempre uma opção pelo conhecimento. Leiam, estudem, participem de cursos, questionem, pensem, busquem informações, vestem museus, bibliotecas e livrarias...

Abram a mente para o mundo. O universo conspira a favor daqueles que  investem no conhecimento!!!

Por Kelley Cristine Gasque
Faculdade de ciência da Informação da Universidade de Brasilia


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Doutor!!!

Vivemos numa época em que há muitos doutores e poucos sábios. Mesmo a sabedoria, em geral, restringe-se à áreas específicas. Nesse mundo com tanta informação, quanto mais se estuda parece que menos se sabe!!!Mas... farmacêuticos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas, psicólogos, dentistas, médicos, engenheiros...são os profissionais que mais se intitulam doutores e fazem questão do título para criar uma separação entre ele e o outro. Aliás de acordo com uma resolução de 2000, do crefito 8 (curitiba), o titulo é recomendado visto que : "a praxe jurídica, fundamentada nos costumes e tradições brasileiras, tão bem definidas nos dicionários pátrios, assegura a todos diplomados por cursos de nível superior, o legítimo direito do uso do título de Doutor". Na verdade, assegura o titulo de bacharel! No século XIX , por exemplo, quando poucas pessoas estudavam, formar em direito, engenharia...era algo incomum, mas hoje em dia assombra "a quantidade de doutores"!! E alguns acham ruins de não serem tratados dessa forma. Mas ainda há outros " doutores" ! São doutores também pessoas que ocupam posições elevadas em uma organização ou empresa, além de ser uma forma de os mais pobres tratarem os mais ricos. Porém, a certificação correta de Doutor refere-se ao mais elevado grau acadêmico e comprova a capacidade de desenvolver investigação num determinado campo da ciência. É atribuído por uma universidade ou estabelecimento de ensino superior autorizado, em regra após a defesa de uma tese de doutorado. Em geral, esse titulo somente é usado restritamente nas comunicações científicas ou bancas de defesa. E como argumenta Eliane Brum: " Não são estes, com certeza, os doutores que alimentam também na expressão simbólica a abissal desigualdade da sociedade brasileira".

Para quem tiver interesse no texto de rum, eis o link: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/09/doutor-advogado-e-doutor-medico-ate-quando.html

domingo, 22 de novembro de 2015

Está difícil articular o texto?

Ao corrigir trabalhos científicos, percebo a dificuldade que os estudantes possuem em articular os assuntos no texto. Em geral, começam a escrever sobre um tópico, passam para outro e voltam no assunto. Outros colocam um título e escrevem os primeiros parágrafos sobre o assunto, depois vão se perdendo ao longo do texto. Ou seja, para muitos isso vira uma verdadeira bagunça!!! Quem lê esse tipo de texto tem a mesma sensação que uma mãe tem ao chegar ao quarto do filho, que ficou uma semana sem arrumar: fechar a porta e sair dali correndo. No caso do quarto há meias, sapatos, roupas, material de escola, jogos... tudo jogado pelo chão, armários com portas abertas...um caos! Igualmente, ocorre com o leitor ao encontrar texto com assuntos salpicados ao longo do texto: deixar o texto de lado. Preferencialmente, jogá-lo fora!

Escrever se aprende escrevendo, fazendo autocorreção e buscando ler sobre o ofício de escrever.  Evidentemente, não queremos nos tornar professores de língua portuguesa, mas sim escrever bem o texto científico para que os leitores possam compreender a nossa mensagem.

O que significa articular o texto, grosso modo?

articular1 (ar.ti.cu.lar). v. 1. Unir(-se) por pontos de junção, de articulação, de modo que cada parte possa mover-se independentemente (www.aulete.com.br/articular)

         Articular o texto significa construir pontos de ligação no texto, que permitam que o leitor compreenda a trajetória de ideias do autor. Um texto é bem articulado, quando possui coerência textual e coesão. A coerência textual refere-se à organização lógica das ideias e sentido e a coesão refere-se à vinculação entre as parte dos texto.

Um texto precisa ter macroestrutura bem organizada com introdução, meio e fim. Em geral, o assunto principal do texto é representado pelo título. Nesse sentido, o título e texto estão vinculados. No texto, há vários subtítulos para representar os subtópicos, que também devem estar vinculados. A dica é que o título ou subtítulo podem ajudar a delimitar o assunto a ser descrito.

Contudo, para que o texto fique articulado, é importante que o autor elabore um plano de trabalho, em que descreverá como abordará o assunto e  delimitará o objeto. Ou seja, é importante fazer um roteiro do assunto a ser abordado. Isso pode ser feito mentalmente, se preferir!  Um exemplo: se alguém precisar escrever sobre biblioteca escolar (BE), um roteiro possível seria:

·      Apresentar  o conceito de BE.
·      Descrever breve histórico da BE no Brasil.
·      Abordar a importância da biblioteca na escola e as funções, serviços e produtos.
·      Analisar a lei sobre a universalização da biblioteca escolar.
·      Discutir  as tendências da BE.

            Com o roteiro em mente, o autor deve construir o texto sempre verificando se continua a seguir a linha proposta no roteiro para que o texto apresente uma organização lógica, a denominada coerência.

Outra dica importante: pense no texto como a união de vários módulos, cada módulo (subtópico) trata de um assunto, portanto deve-se evitar misturar esses subtópicos. Um assunto não deve ser como orégano que salpicamos aleatoriamente em cima da pizza. Os assuntos gostam de grupinhos, de ficarem juntos, são elitistas!

          Em relação à coesão, podemos compreendê-la como mecanismo linguístico que articula as sentenças entre si – a sentença anterior com a que virá depois.
Por exemplo:  o indivíduo letrado informacionalmente desenvolve competências para lidar efetivamente com a informação, consequentemente consegue gozar os direitos e deveres da cidadania.

Na frase há uma relação de consequência entre as sentenças. A coesão ocorre em função  das relações de sentido existente entre os enunciados.Tais relações são  possiveis com o uso dos conectivos ou elementos de coesão; preposições, conjunctões, advérbios, etc.

É isso!!! Escrevam muito, pratiquem! Muito sucesso!!!

Referencias:


Dicionário online Caldas Aulette. 
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para Entender o Texto: Leitura e Redação. 18 ed. São Paulo: Ática, 2007.



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Procedimentos argumentativos do texto científico

Por Kelley Cristine Gonçalves Dias Gasque

Escrever bem, com fluência, um texto científico não é tarefa fácil, mas possível por meio da prática reflexiva e do conhecimento de alguns procedimentos. O exemplo das dificuldades pelas quais Charles Darwin passou após os cinco anos de viagem a bordo do beagle ilustra essa situação,  que não se restringe aos "simples mortais", mas também aos grandes homens da ciência. Na ocasião, ele estava em alto-mar tentando reescrever as anotações  geológicas para obter fluência, porém ele considerava não ter sido exatamente bem sucedido, como revela a confissão:

 “Estou começando a descobrir agora as dificuldades que alguém tem de expressar as ideias no papel. Quando isso consiste apenas em descrever algo, é bastante fácil; mas quando o raciocínio entra em jogo, quando é necessário estabelecer uma conexão  apropriada e, atingir clareza e fluência modestas, tudo isso é para mim, uma dificuldade do qual não tinha ideia”(DESMOND; MOORE, 2009, p. 201)

            Escrever bem aprende-se escrevendo de forma reflexiva, por isso deve fazer parte da labuta cotidiana do pesquisador. Prática reflexiva significa fazer quantas vezes for necessário para se chegar ao resultado desejado, levando-se em conta os conhecimentos e procedimentos existentes sobre o assunto. Isso significa buscar modelos, testar, questionar, fazer e refazer.

         O texto representa a pesquisa empreendida, o trajeto percorrido, o que requer fluência, clareza e procedimentos de argumentação. Flick (2009)  explica que a produção textual é a parte básica da pesquisa qualitativa e que produzi-la é um caso especial de construção social da realidade. Isso porque o texto revela uma concepção de mundo, representada por meio da linguagem, que  deve se estruturar de forma lógica e lingüística.

O argumento é um princípio básico para a construção do texto, visto que se pretende persuadir o leitor sobre determinada ideia. Platão e Fiorin (1997), na obra “Para entender o texto”, apresentam os principais recursos para o texto ser convincente:

             A unidade: o texto deve ter uma espinha dorsal, um objeto central. Textos que abrangem muitas informações acabam por “desinformar” e confundir o leitor. Vale ressaltar que isso não significa ser redundante ou repetitivo. O texto deve ter variedade dentro do próprio conteúdo a ser explorado, desde que se inicie, continue e finalize dentro do mesmo tema.

                         Argumento da autoridade: defesa de tese com citação de autores/pesquisas sobre o assunto. Um texto ganha maior peso e credibilidade quando se sustenta em outros textos que trataram o assunto.

                   Estabelecimento de correlações lógicas entre as partes do texto: o texto precisa ser organizado de forma lógica, apontando as causas e os efeitos das afirmações que produz.
                    
            Refutação dos argumentos contrários: parte-se do princípio que sempre há ideias divergentes sobre o mesmo assunto. Assim, deve-se apresentar com clareza as opiniões contrárias e refutá-las com argumentos sólidos.
                    
                   Confirmação da tese por meio de exemplos: uma ideia geral e abstrata fica mais robusta quando acompanhada de exemplos concretos e adequados.

Vale lembrar que o texto é uma sequência de enunciados organizados de forma lógica. Os enunciados são estruturados por parágrafos. Cada parágrafo deve conter uma única afirmação. Além disso, os parágrafos devem estar conectados uns com os outros, de forma que o leitor consiga visualizar a linha de pensamento do pesquisador.

Assim, a produção textual, apesar de ser tarefa complexa, pode ser melhorada a partir do uso de técnicas de argumentação e da prática reflexiva. O pesquisador deve ter em mente que o texto precisa ter um tema central, apoiar-se em outros textos e autores para tornar a sua ideia mais robusta; organizar os enunciados e parágrafos de forma lógica, considerando as causas e efeitos das afirmações; apresentar ideias contrárias ao argumento e refutá-las ,  bem como usar exemplos adequados para ilustrar as ideias.

Referências:

DESMOND; MOORE. Darwin: a vida atormentada de um evolucionista. Geração editorial, 2007.
FIORIN, José Luiz; PLATÃO, Francisco. Para entender o texto: leitura e redação. 13 ed. São Paulo: Ática, 1997.

FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa. 3 ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Pela universalização das bibliotecas escolares na educação básica

 As bibliotecas escolares são cruciais na educação básica. Isso porque vivemos em uma sociedade que produz grande quantidade de informação, em que saber buscar e usar bem a informação para transformá-la em conhecimento torna-se capacidade fundamental dos cidadãos — processo denominado letramento informacional. Esse processo deve ser iniciado a partir da educação infantil nas bibliotecas escolares, com a atuação dos bibliotecários em parcerias com os professores e a comunidade escolar.

Muitas pessoas referem-se às bibliotecas escolares somente como locais de armazenamento de livros, o que denota visão bastante tradicional e distorcida do conceito. As bibliotecas escolares atuais possuem acervo diversificado com materiais impressos, digitais e audiovisuais, por exemplo, livros, revistas, jornais, jogos, acesso à internet, DVDs, instrumentos musicais, entre outros. Ao mesmo tempo, são espaços de aprendizagem, investigação, acesso aos bens culturais, lazer e que incentivam a leitura.

Muitos estudos apresentam a contribuição das bibliotecas escolares para a aprendizagem. A Associação de Bibliotecas Escolares Australianas (Asla), por exemplo, identificou mais de 400 pesquisas que mostram impacto significativo na aprendizagem. Em consequência disso, o governo australiano ampliou o orçamento anual para as bibliotecas escolares.

O estudo de Ohio, realizado em 2005, com 13.123 estudantes da educação básica nos Estados Unidos, verificou que o uso sistemático das bibliotecas, com atuação de bibliotecários, propicia aos aprendizes melhoria no conteúdo das pesquisas, na produção textual, no produto final da pesquisa e nas atitudes em relação ao uso da biblioteca. Os estudantes também melhoram os processos de busca e uso da informação, a capacidade de usar computadores de forma crítica e tornam-se leitores motivados, com mais autonomia e senso crítico.

Além disso, temos o exemplo da Finlândia, que obteve excelentes desempenhos nas últimas avaliações do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). O ensino finlandês centra-se no aprender fazendo, o que requer, frequentemente, a realização de projetos de pesquisa para resolução de problemas. Para tanto, conta com sólida rede de bibliotecas escolares para apoiar a aprendizagem.

No Brasil, ao contrário das experiências citadas anteriormente, a situação das bibliotecas escolares é bastante precária. Em 2010, foi sancionada a lei de universalização das bibliotecas escolares, que prevê a obrigatoriedade delas no ensino público e privado, a ser efetivada num prazo máximo de 10 anos, respeitada a profissão de bibliotecário.

Contudo, o censo escolar de 2013 mostra que mais da metade das escolas não possuem bibliotecas. E muitas dessas, na verdade, não passam de salas de leitura, sem infraestrutura de informação adequada e sem contar com o trabalho do bibliotecário. Os baixos percentuais de cobertura podem indicar que, se não houver mudanças, a lei não será cumprida até 2020.

Algumas hipóteses possíveis para explicar tal fato relacionam-se, primeiramente, ao desconhecimento do que seja uma biblioteca escolar e das possibilidades de serviços e produtos que podem oferecer. Em segundo lugar, destaca-se o desconhecimento do impacto das bibliotecas na aprendizagem e, por fim, o fato de que investimentos em bibliotecas têm relação direta com os níveis cultural e educacional de um país.

Sobre a questão educacional, apesar de ter havido melhorias no sistema educacional brasileiro, a maior parte das escolas é tradicional, com aulas mais expositivas, estudantes passivos e currículo pouco flexível. Nessa concepção, os livros didáticos constituem a principal fonte de informação em sala de aula, os estudantes não são estimulados a pesquisar múltiplos pontos de vista sobre um assunto e verificar a confiabilidade da informação. Por sua vez, os professores não foram formados para pesquisar e usar a biblioteca, ou seja, nem sempre há incentivo para o uso dos recursos propiciados pelas bibliotecas escolares.

Assim, além da obrigatoriedade da lei, é preciso que os brasileiros tenham consciência acerca da importância das bibliotecas escolares para o ensino-aprendizagem, que exijam escolas com bibliotecas de qualidade e que a atuação de um bacharel em biblioteconomia (bibliotecário) seja crescente. Mais ainda, é fundamental a exigência de uma escola que ensine os estudantes a buscar e a usar a informação de forma eficaz e eficiente para que possam resolver problemas com autonomia e visão crítica ao longo da vida.

Correio Braziliense, p. 11, de 20/10/2014 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Letramento informacional e ensino-aprendizagem

Letramento informacional e ensino-aprendizagem

22/09/2014 06:53
Autora: Kelley Cristine Gonçalves Dias Gasque - Professora do Programa de Pós-Graduação em ciência da informação da Universidade de Brasília (UnB)
Publicação: 22/09/2014 04:00
No artigo “Os jornais e o sistema educacional”, publicado pelo Correio Braziliense em 24 agosto de 2014 (pág. 15), Jaime Pinsky argumenta sobre a importância de os professores ensinarem os estudantes a pesquisarem, fornecendo-lhes orientação sobre fontes de informação confiáveis, para que possam estabelecer conexão entre as informações, dando sentido a elas. A ciência da informação denomina o processo de desenvolvimento da capacidade de buscar e usar a informação eficaz e eficientemente de “letramento informacional”, reconhecendo-o como essencial para a construção do conhecimento nos dias atuais.

O termo letramento informacional foi cunhado na década de 1970, nos Estados Unidos, por Zurkowski, presidente da Associação de Indústria da Informação, em relatório para a Comissão Nacional de Bibliotecas e Ciência da Informação. Para o autor, apenas pequena parcela da população dos EUA realmente compreendia como utilizar a ampla gama de ferramentas de informação para resolução de problemas. A partir daí, muitos esforços têm sido realizados, em muitos países, para a inclusão desse processo nos sistemas educacionais.

Nas últimas décadas, com o grande volume de informação produzida, muitas pessoas não sabem como acessar informações de qualidade — isto é, separar o joio do trigo. Qualquer um pode postar informação na internet, verdadeira ou não. As mídias divulgam informações que nem sempre são interpretadas de forma crítica pela comunidade. Nas redes sociais, nos blogs e sites proliferam informações erradas ou sem comprovação científica. As enciclopédias colaborativas, como a Wikipédia, não possuem especialistas para avaliar a confiabilidade da informação antes que ela chegue aos leitores.

Mais ainda: do ponto de vista acadêmico, observa-se a impossibilidade de o currículo acadêmico cobrir toda a produção científica e tecnológica produzida pela humanidade. Isso porque os investimentos nessa área propiciam mais produção e resultados de pesquisas que, por sua vez, fomentam novos projetos, em um ciclo cada vez mais rápido e difícil de acompanhar.

Por isso, a preocupação em ensinar a buscar e usar informação constitui-se capacidade crucial a ser desenvolvida na sociedade contemporânea. Algumas décadas atrás, o Prêmio Nobel Herbert Simon afirmou, em documento elaborado para o Comitê de Aprendizagem, que mais importante do que memorizar informações sem compreendê-las é saber buscá-las e usá-las para resolver problemas.

O letramento informacional envolve o ensino-aprendizagem de grandes competências a serem desenvolvidas pelos aprendizes, quais sejam: identificar a necessidade de informação; buscá-la e avaliá-la de forma eficaz e eficiente; usá-la para produzir conhecimentos, considerando as questões éticas, econômicas e sociais; bem como saber comunicá-la de acordo com o contexto e as diversas situações.

Tais competências se desdobram em diversas habilidades, que devem constar no currículo escolar da educação básica e do ensino superior. Alguns autores argumentam que os conteúdos devem ser trabalhados transversalmente ao currículo acadêmico. Contudo, há evidências na literatura da área de que a melhor forma de trabalhar deveria ser por meio de projetos de pesquisa ou resolução de problemas.

Assim, o letramento informacional, por abranger componentes como processo investigativo, aprendizado ativo, pensamento crítico e o aprender a aprender, possibilita aprendizagem significativa e duradoura. Nesse processo, a biblioteca assume papel fundamental e deve estar envolvida nas práticas pedagógicas, atuando como centro de recursos de aprendizagem. É um espaço privilegiado, que propicia o lidar com vários tipos de informação e pontos de vistas, fomento à leitura, o estudo colaborativo e atividades culturais.

As experiências internacionais nos revelam que o letramento informacional é um processo e ferramenta poderosa na aprendizagem. Contudo, no Brasil ainda é pouco difundido. Isso mostra que, mais uma vez, o sistema educacional brasileiro precisa de investimentos em infraestrutura, com inclusão de bibliotecas escolares de qualidade, planejamento que envolva a formação de professores e mudanças na concepção de ensino-aprendizagem, bem como monitoração constante do processo. Mais ainda: precisa de uma sociedade que exija educação de qualidade!
Fonte: Correio Braziliense, 22/09/2014 (seção Opinião)

Foto: Centro de Recursos de Aprendizagem do Colégio Marista de Brasília