quarta-feira, 2 de maio de 2018

FAKE NEWS



Kelley Cristine Gonçalves Dias Gasque – Professora da Faculdade de Ciência da Informação / Universidade de Brasília
Janaina Fialho – Professora do Departamento de Ciência da Informação / Universidade Federal de Sergipe



Nos últimos anos, deparamo-nos com um conceito muito abordado no nosso cotidiano:  fake news, traduzido por notícias falsas. Pode-se compreender o conceito como a fabricação de notícias falsas, que imitam o conteúdo da mídia na forma, mas não no processo ou na intenção da organização. Estas notícias objetivam criar tumultos e gerar imprecisão na compreensão da informação. O fenômeno ainda requer muitas pesquisas, mas a literatura mostra que a evolução dos métodos automatizados de detecção de fraudes pode ser aliado poderoso no combate às fraudes, desde que a sociedade se conscientize da necessidade de uma mudança na forma de pensar, aprender e agir. 
Um artigo publicado, em 2015,  por pesquisadores  da University of Western Ontario, no Canadá, sobre métodos de detecção automática mostra dois tipos de abordagens para lidar com as notícias falsas, quais sejam, as linguísticas e as baseadas em redes. No primeiro caso, o conteúdo das mensagens falsas é extraído e analisado para associar padrões de linguagem a fraude; e na segundo caso, as informações de rede, como metadados de mensagens ou consultas a redes estruturadas de conhecimento, podem ser aproveitadas para fornecer medidas de fraude agregadas.  Os pesquisadores concluem o artigo afirmando que o uso da abordagem  híbrida, isto é, a junção entre a linguística e a baseada em rede possibilita resultados de alta precisão em tarefas de classificação, dentro de domínios limitados. 
Outro artigo mais recente publicado na revista Science (2018) sustenta sobre a necessidade de uma abordagem mais ampla,capaz de conter o fluxo e a influência de notícias falsas na sociedade. Tal abordagem deve abranger mudanças estruturais destinadas a evitar a exposição de indivíduos a notícias falsas, por meio do uso de ferramentas de detecção e também capacitá-los para avaliarem as notícias falsas que encontram. Neste contexto, surge o conceito de pós-verdade, o qual propõe que, em determinadas circunstâncias, emoções e crenças pessoais têm mais influência para moldar a opinião pública do que fatos objetivos. 
O referido artigomostra que a questão do julgamento humano é complexa, pois é necessário considerar os vários vieses que  os indivíduos desenvolvem ao lidar com as novas informações. Indivíduos, em geral, só questionam a credibilidade de uma informação, quando elas se opõem as suas crenças. Além disso, é necessário considerar que as pessoas preferem informações que confirmem as crenças preexistentes (exposição seletiva) e diminuam as informações dissonantes, bem como estão mais inclinadas a aceitar informações que lhes agradem (viés de desejabilidade). Além dos fatores citados, há muitos outros que podem influenciar na detecção das notícias falsas.  Portanto, a abordagem proposta pelo artigo da Science de unir esforços humanos e ferramentas de automação pode propiciar  diretrizes mais concretas de ação. O artigo ressalta ainda que esse esforço deve ter amplitude para criar um ecossistema de notícias e uma cultura que valorize e promova a verdade
Considerando a necessidade da criação desse ecossistema e corroborando a ideia de unir esforços da ciência da computação e também de outras áreas, é importante abordar o trabalho dos profissionais que podem atuar como mediadores no acesso à tecnologia, os quais podem contribuir significativamente para a mudança do status quo, tais como bibliotecários e cientistas da informação. Ambos se ocupam da tarefa de mediar o acesso das pessoas à informação, ajudando-as a usarem a informação de forma crítica e seletiva, dando credibilidade às fontes devidas.
Esse processo de aprendizagem, denominado letramento informacional, surgiu nos Estados Unidos a partir da década de 1970 com a preocupação de ajudar as pessoas a lidarem com o crescimento exponencial da informação, no entanto começou a ficar mais robusto a partir da década de 1990, com o surgimento de propostas de conteúdos de aprendizagem para serem trabalhados na educação formal, em serviço e continuada. O letramento informacional fundamenta-se em um novo paradigma de aprendizagem, em que se considera que saber buscar informação e usá-la eficaz e eficientemente para tomar decisões e resolver problemas é mais importante do que a simples memorização de conteúdos de maneira não compreensiva. O foco é na aprendizagem ativa e autônoma, em que os aprendizes desenvolvem competências para identificar e delimitar problemas; identificar  canais e fontes confiáveis de informação; selecionar e avaliar informações de acordo com os objetivos; organizar e transformar a informação em conhecimento, e por fim , saber comunicar o conhecimento adquirido. 
As competências citadas abrangem inúmeras habilidades e objetivos de aprendizagem, as quais precisam ser distribuídas e trabalhadas ao longo do currículo, preferencialmente por meio de abordagem de projetos. Tal processo deve ser iniciado na educação básica, por meio da intervenção orientada de bibliotecários nas escolas e bibliotecas bem estruturadas. O bibliotecário, juntamente com o professor, poderá trabalhar para desenvolver o letramento informacional junto às crianças. As pesquisas da área,  mostram que a implementação de programas de letramento informacional é fundamental para a formação de pessoas com autonomia para lidar com a informação, essencial na sociedade da aprendizagem, em que os pilares de desenvolvimento centram-se na grande produção de informação, no uso intensivo das tecnologias de comunicação e informação e no processo de aprendizagem permanente. Porém, esses conteúdos ainda não fazem parte, de forma organizada e sistêmica dos currículos brasileiros, o que traz graves problemas para a educação e a sociedade. Uma questão que precisa ser urgentemente abordada. 

FONTE: PUBLICADO NO CORREIO BRAZILIENSE, QUARTA-FEIRA, 02 DE MAIO DE 2018, P.11, OPINIÃO.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Ciência se faz com método e evidências!

Nossa vida está em constante mudança com o conhecimento científico, e é impossível não se maravilhar com o método científico. Lembre-se que Henrique VIII, por exemplo, teve sérias complicações com a malária, a varíola e sofreu com enxaquecas durante anos devido a um ferimento de lança. Além disso, nos últimos anos de vida, teve uma úlcera na perna que o deixou enlouquecido de dor. Como na época, não havia muito conhecimento sobre alimentação, o rei morreu com 179 kilos de gordura, hipertensão e diabetes. Hoje, as doenças que o levaram estão controladas e não causam (se o paciente levar o tratamento a sério) a morte prematura.No entanto, muitas pessoas ainda precisam entender melhor a ciência e questionar as superstições e crenças errôneas do cotidiano. 

É preciso pensar sobre as coisas, entender como funcionam. O mundo não é algo mágico que funciona sem padrão. Desde a antiguidade, os homens tentam entender o mundo a nossa volta e conseguiram produzir conhecimento sem usar a magia ou crenças que não podem ser provadas. 

Vale lembrar  o nosso querido Carl Sagan: " Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar". Portanto, o mesmo autor argumentava: "não se refugie em falsas ilusões!" . 

Assim, vale a dica: pese as evidências, reflita sobre as questão, busque informações, organize os conceitos...para somente depois chegar a uma conclusão, mesmo que provisória!



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Erros comuns nos trabalhos de graduação

A postagem de hoje é sobre levantamento que fiz ao corrigir trabalhos de estudante de graduação. São erros, em geral, que ocorrem muito frequentemente nas minhas correções.  O objetivo de compartilhar os erros é para que outros estudantes evitem cometê-los. Vou dividir o grupo de erros em relação à normas, questões de língua portuguesa e outros problemas.

Os problemas mais comuns em relação ao uso da língua portuguesa:
1) Uso do gerúndio do tipo "vem sendo utilizado".
2) Afirmar sem mostrar evidências na literatura.
3) Chamar a Jaque o tempo todo: "Já que...".

Os problemas mais comuns em relação ao uso das normas da ABNT
1) Colocar como titulo: " trabalho de Estudos de Usuários" .
2) Usar citação de citação, quando é possivel ir ao original.
3) Usar 1 pessoa do plural (muito frequente!). O tradicional é no impessoal
4) Esquecer de sublinhar o titulo do periódico nas referências.
5) Nomes estrangeiros sem uso do itálico
6)Citação literal sem página (muito freqüente!)
7) Usar E na citação de dois autores, por exemplo, (DIAS E SILVA, 2003).

Outros problemas
1) Uso de escala no questionário com diariamente, semanalmente... (advérbios que não podem ser mensurados.



domingo, 15 de outubro de 2017

Valorização do professor!

          Dia 15 de outubro, comemoramos o dia do professor no Brasil! Não há sociedade desenvolvida sem a contribuição do professor. Contudo, paradoxalmente, hoje ele é pouco reconhecido e valorizado no Brasil, juntamente com a educação e cultura. Os investimentos nessas áreas não são suficientes para a construção de um país “bom para viver”. Vivemos mergulhados na corrupção, na violência, no pouco caso com os cidadãos de bem. Nunca o Brasil precisou tanto de professores bem formados e de um sistema de educação que possibilite a transformação de indivíduos em sujeitos críticos-reflexivos, produtores de processos e produtos sustentáveis, com foco na inclusão, na diversidade cultural e em uma sociedade mais fraterna e democrática.
          A educação é o investimento mais importante que um país deve priorizar e privilegiar, pois dela, depende o progresso das demais áreas. Não é a toa, como se pode verificar na história do mundo, que os príncipes sempre tiveram os melhores preceptores ou aqueles mais adequados à formação desejada para um príncipe.
          A responsabilidade de educar um indivíduo passa pela família. Cada geração é responsável pela formação das gerações posteriores, em um movimento dinâmico de amplificação e compartilhamento de saberes, procedimentos e atitudes. Família bem-educada participa e é responsável pela formação dos filhos.  Não há demonstração maior de amor do que impor limites, listar obrigações, exigir respeito, responsabilidade e disciplina. Mais ainda, mostrar aos filhos como a educação pode ser um processo transformador.
          O papel dos estudantes no processo de aprendizagem é fundamental, pois não há professor que consiga bons resultados sem os estudantes se abrirem para a própria aprendizagem. Os aprendizes precisam participar ativamente da aprendizagem, conhecer as suas possibilidades e desejar adquirir os novos conhecimentos.
          Por sua vez, em sala de aula,  o professor deve ter consciência, disciplina e responsabilidade com as obrigações de ensino. Nesse sentido, a formação adequada dos professores é essencial para a formação das novas gerações. E aqui ressalta-se a importância dos professores também serem responsáveis pela própria formação. Ou seja, a formação de professores depende dos sistemas de ensino e dos próprios professores. Os professores precisam ter conhecimento dos conteúdos de ensino, das questões psicopedagógicas, técnico-didáticas, além de uma boa formação cultural e ética. Professor não deve doutrinar sobre as próprias crenças, mas ensinar os estudantes quais as estratégias para pensarem melhor e tomar boas decisões. O professor deve ser um exemplo a ser seguido, em especial, no que concerne à questão ética.
          Portanto, deveríamos comemorar o dia dos professores todos os dias, como forma de reivindicar melhores sistemas de ensino e formação adequada de professores para que tenhamos uma sociedade melhor. Reconhecer a importância e valorizar a contribuição do professor nesse processo são os primeiros passos para essa mudança de paradigma!!!
Kelley Cristine Gonçalves Dias Gasque


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O perigo das citações indiretas

Citação indireta, de acordo com a norma NBR 10520, " é um texto baseado na obra de um autor consultado". Por sua vez, citação direta refere-se à  "transcrição textual de parte da obra do autor consultado".  Portanto, o primeiro tipo de citação não é literal, ao contrário do segundo, que deve ser exatamente igual ao texto consultado.
As citações literais são mais fáceis de fazer por serem cópias fieis dos autores consultados, mas em excesso demonstra descaso do autor com o próprio texto. Grosso modo, falamos da diferença entre copiar (citação literal) e interpretar o significado e reescrever o texto com as próprias palavras (citação indireta). Um texto com citações indiretas, bem escritas e articuladas, é mais fácil de ler, mais elegante, mais valorizado!
 Faz sentido fazer citações literais somente daqueles textos que realmente são difíceis de "traduzir" com as próprias palavras.  O ideal é realmente fazer citações indiretas.Contudo, por serem mais complexas e exigirem mais trabalho do autor, nem sempre são feitas corretamente! 
Em uma das bancas de graduação que participei recentemente, um membro da banca acusou o estudante de plágio, pois ele havia trocado algumas palavras apenas do texto.   Eu não considerei que o estudante tivesse plagiado, pois havia menção de autoria em todos os parágrafos citados, porém a forma da citação era claramente incorreta. Ou seja, era quase uma citação direta! 
Para deixar mais claro, a seguir apresentam-se uma citação indireta do texto e duas citações indiretas. Consegue descobrir qual das citações indiretas é a correta?

1. Citação direta:

 A acessibilidade na biblioteca universitária é fundamental para que todos os usuários se sintam incluídos na sociedade, devendo haver uma preocupação, por parte dos profissionais da informação, em adequar suas unidades de informação para atender toda uma diversidade de usuários  (FIALHO, 2012, p. 155). 


2.  Citação indireta:

Fialho (2012) argumenta que a acessibilidade na biblioteca universitária é importante todos os usuários se sentirem incluídos na sociedade, devendo haver uma preocupação, por parte dos profissionais da informação,  em atender a diversidade de usuários. 

3. Citação indireta:

Fialho (2012) explicita sobre a importância da inclusão na sociedade, em especial nas bibliotecas universitárias. Mais ainda, deixa claro que os profissionais de informação precisam contribuir com a inclusão por meio da adequação das  unidades de informação aos diversos usuários. 

Como se observa o item número 2 apresenta citação indireta com apenas trocas de sinônimos. Na verdade, é quase uma citação literal. Ao contrário do item 3, que houve uma paráfrase do texto. Portanto, uma citação indireta é a interpretação e reescrita do texto com as próprias palavras, preservando o sentido original.

Muitas vezes, esse tipo de erro não ocorre de maneira intencional, mas por desconhecimento. Contudo, na hora da banca não adianta dizer que foi desconhecimento... Por isso, espero que esse post ajude as pessoas que precisam apresentar um texto científico de qualidade. Boa sorte!!!








 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O conhecimento liberta!

Cada um corre atrás dos sonhos e das realizações.
O conhecimento é um dos maiores bens, que podemos almejar e conquistar!                      O conhecimento não pode ser algo para alimentar a arrogância, ao contrário mostra como somos pequenos diante do universo a ser descoberto e como sempre é preciso aprender mais.
Aprender deve ser sempre um exercício de humildade, pois ninguém sabe tudo e sempre é possível aprender com outras pessoas, já argumentava Cora Coralina. Além disso, precisamos nos lembrar que vemos mais longe, de acordo com Einstein, quando subimos em ombros de gigantes.
O conhecimento não é uma dádiva, é muito mais transpiração do que inspiração. Dewey afirmava que aprender requer disciplina. Ou seja, a aprendizagem é um processo infinito e difícil, pois requer esforço, compromisso,organização e responsabilidade. O conhecimento depende da experiência de cada um e de como ancoramos as novas informações com o que conhecemos. Assim, cada processo de aquisição de conhecimento é algo pessoal, intransferível e maravilhoso! A aprendizagem muda literalmente o nosso cérebro!
O conhecimento é uma ferramenta para ser usada contra as crendices e a ignorância que assolam o mundo, assim precisa ser compartilhado e constantemente ampliado. Dewey também afirmava que a verdadeira liberdade é a intelectual! O conhecimento avorece o crescimento pessoal e coletivo, oportuniza melhores condições de trabalho e produtividade e de nos adaptarmos constantemente em um mundo que se transforma a cada instante. O conhecimento propicia o prazer da aprendizagem, de olhar o mundo e compreende-lo melhor, de usar os recursos de forma sustentável, em prol da vida plena dos cidadãos.
Façam sempre uma opção pelo conhecimento. Leiam, estudem, participem de cursos, questionem, pensem, busquem informações, vestem museus, bibliotecas e livrarias...

Abram a mente para o mundo. O universo conspira a favor daqueles que  investem no conhecimento!!!

Por Kelley Cristine Gasque
Faculdade de ciência da Informação da Universidade de Brasilia


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Doutor!!!

Vivemos numa época em que há muitos doutores e poucos sábios. Mesmo a sabedoria, em geral, restringe-se à áreas específicas. Nesse mundo com tanta informação, quanto mais se estuda parece que menos se sabe!!!Mas... farmacêuticos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas, psicólogos, dentistas, médicos, engenheiros...são os profissionais que mais se intitulam doutores e fazem questão do título para criar uma separação entre ele e o outro. Aliás de acordo com uma resolução de 2000, do crefito 8 (curitiba), o titulo é recomendado visto que : "a praxe jurídica, fundamentada nos costumes e tradições brasileiras, tão bem definidas nos dicionários pátrios, assegura a todos diplomados por cursos de nível superior, o legítimo direito do uso do título de Doutor". Na verdade, assegura o titulo de bacharel! No século XIX , por exemplo, quando poucas pessoas estudavam, formar em direito, engenharia...era algo incomum, mas hoje em dia assombra "a quantidade de doutores"!! E alguns acham ruins de não serem tratados dessa forma. Mas ainda há outros " doutores" ! São doutores também pessoas que ocupam posições elevadas em uma organização ou empresa, além de ser uma forma de os mais pobres tratarem os mais ricos. Porém, a certificação correta de Doutor refere-se ao mais elevado grau acadêmico e comprova a capacidade de desenvolver investigação num determinado campo da ciência. É atribuído por uma universidade ou estabelecimento de ensino superior autorizado, em regra após a defesa de uma tese de doutorado. Em geral, esse titulo somente é usado restritamente nas comunicações científicas ou bancas de defesa. E como argumenta Eliane Brum: " Não são estes, com certeza, os doutores que alimentam também na expressão simbólica a abissal desigualdade da sociedade brasileira".

Para quem tiver interesse no texto de rum, eis o link: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/09/doutor-advogado-e-doutor-medico-ate-quando.html